Porque é que o não importa mais do que o sim
Num dia, uma encomenda justa. No seguinte, um nome famoso a oferecer um décimo do preço por dez vezes o trabalho. Uma pequena lição sobre como uma carreira criativa se constrói naquilo que recusamos.
Dois dias, um a seguir ao outro. No primeiro, fui contratado para uma sessão de fotografia — três horas, bem paga. Bom trabalho, devidamente valorizado.
No segundo, uma conhecida casa de leilões internacional veio pedir. Um cliente de luxo. O briefing: um mínimo de cento e vinte fotografias finalizadas, um vídeo curto, dois reels. Muito mais trabalho do que no dia anterior. Enviei o meu orçamento. A resposta: "só pagamos até €200."
Um décimo do valor. Por dez vezes o trabalho. De um nome que reconheceria.
Nunca foi sobre o orçamento
Um número assim não é uma limitação, é um veredicto — sobre como valorizam o trabalho, e a nós. O prestígio era para ser o pagamento: fica grato por teres sido convidado. Os grandes nomes testam-nos com números pequenos precisamente porque tantos dizem que sim pelo logótipo.
O sim que é, no fundo, um não
Dizer sim a isso é dizer não à nossa própria tarifa, à nossa agenda e ao próximo cliente que teria pago aquilo que o trabalho vale. E o desconto nunca fica "só desta vez" — depois de trabalhar por um décimo, isso passa a ser o nosso preço, e a conversa seguinte começa aí.
A lição é de gestão, não de orgulho
O nosso preço é a nossa posição. O não não é ego; é estratégia. Estabelece um patamar, filtra os clientes que não respeitam o ofício e mantém a agenda livre para os que respeitam. Recusar o trabalho errado é como nos mantemos disponíveis para o trabalho certo.
Os SIMs pagam este mês. Os NÃOs decidem quanto vale o teu SIM.
Uma carreira é moldada pelo menos tanto pelo trabalho que recusamos como pelo que aceitamos. Aprende a dizer não, e o sim passa finalmente a significar alguma coisa.